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Retiro (quase) espiritual


Quando a noite espalha sua capa negra por onde minha vista alcança, um mundo encantado curva-se com branda nobreza para me convidar a ouvir a orquestra dos grilos iluminados pelo ballet dos vagalumes.


A brisa das montanhas acompanha com um assobio que refresca minha pele calorenta.


As nuvens negras misturam-se com nuvens brancas para esconder as estrelas que vão reconquistando o céu abandonado pelo sol mais uma vez entre muitos milhões de outras vezes.


Deixo meu cansaço ir embora com o dia.


Relaxo e me sinto bem tranquilo e sem problemas.


Fecho os olhos para ver o mundo ao meu redor e surpreendo-me com cores, sabores, melodias e emoções a emergirem dos matagais da minha alma.


Com meus seres imaginários, cujos nomes mantenho em segredo, danço uma dança tão antiga quanto a minha primeira lembrança e vasculho meu pote de ouro para encontrar o presente que ganhei quando ainda cavalgava um cavalo negro em terras cobertas por espessa neblina. 


Desfaço meu leito na relva verdejante sem desfazer minha sublime quietude.


Numa marcha de paz triunfante, volto para a cabana e acendo a luz que atrai insetos como o dinheiro atrai os homens gananciosos.


O reflexo de minha alma…


Sento em minha cadeira e começo a escrever estas linhas que passam a fluir como se toda a minha existência estivesse paralisada num êxtase intelectual, emocional e espiritual com potencial para desvendar o propósito de minha vida e, por um instante, o som das asas ventando em minha nuca me faz pensar que sou um anjo, mas as cócegas, longe de serem prazerosas, cobrem meu corpo de um terror ancestral e … Puta que pariu:


Bato a mão no meu cangote e esmago uma mariposa do tamanho de um filhote de pardal.


Que nojo!


Ela caiu semimorta no chão e com um FATALITY “pisão havaiano” de quebrar a outra perna de Anderson Saci Silva, acabei com o resto da vida da semiviva mariposa tamanho GG, que agora está morta por inteiro.


E eu, semimorto de cansaço mental, olho para o teclado mordendo os lábios em sinal de despedida.


Meu atraente destino é a cama e meu encontro com Deus na cabana não é um sonho que gostaria de sonhar nesta noite, mas um sonho que gostaria de sonhar acordado todos os dias.







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